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O levante dos aspirationals

Aspirationals não é uma daquelas gerações que os psicólogos gostam de nos enquadrar pela data de nascimento. Nem é só mais um tipo de consumidor que o pessoal de marketing gosta de segmentar para identificar preferências. É um termo criado para englobar uma camada da sociedade que compartilha novos valores e que começa a aparecer com mais frequência.

O aumento da educação e da capacidade de comunicação independente via redes sociais deu o poder e a voz que os Aspirationals precisavam para se revelarem, e isso justifica seu maior número entre as gerações mais novas. Contudo, eles já representam mais de um terço do total de consumidores mundiais, segundo estudos da GlobeScan.

No momento atual, além do COVID-19, o mundo está sendo sacudido pelas manifestações que iniciaram nos EUA e se estenderam para outros países, questionando não somente o racismo estrutural, mas a própria economia mundial que não consegue lidar com obstáculos e incertezas em momentos de crises – gerando enorme desemprego p.e.

As empresas que podem estão se digitalizando e automatizando seus processos. Com isso, os empregos não serão os mesmos quando a pandemia acabar. O avanço inevitável das tecnologias exponenciais, principalemente Inteligência Artificial, fará com que esse movimento continue acelerando. Portando, é de se esperar que uma camada da população esclarecida – mas acostumada a ficar em silêncio – comece a se movimentar.

O aumento da voz dos Aspirationals está ajudando a criar um “novo capitalismo” que já foi exposto no manifesto das 181 maiores empresas americanas no ano passado. Juntas elas representam mais de 17 milhões de empregos e sabem que para sobreviver no longo prazo vão precisar se adaptar aos novos valores emergentes na população, que estão além do lucro.

Isso não quer dizer que o lucro e o crescimento econômico não importam – Aspirationals consomem e querem ter muitas experiências – mas para eles as empresas e os governos devem estar alinhados com questões de sustentabilidade, tanto em relação ao meio ambiente quanto ao bem estar social – que em última análise é o objetivo de toda economia.

Parece difícil para um país como o Brasil com tantos desafios básicos pensar em questões de sustentabilidade e longo prazo. Alguns economistas inclusive justificam o crescimento passado dos países desenvolvidos – e mais recentemente da China – à liberdade de infringir regras de meio ambiente e direitos humanos, e por isso defedem que países em desenvolvimento sigam os mesmos passos.

A razão deles está nos indicadores da economia industrial, mas o avanço das tecnlogias está nos distanciando dela cada vez mais. O surgimento de novos arranjos econômicos cresce a passos exponenciais, desestruturando muitos dos modelos econômicos montados no século passado. Ficar preso a eles é mero apego ou estratégia protecionista.

Não se trata somente da nova economia digital, mas da economia real com todas suas necessidades de criação e distribuição de recursos para resolver os grandes desafios globais. As tecnologias estão tornando as cadeias de produção e suprimento cada vez mais eficientes, e um mundo com pouca necessidade de trabalho humano e sem escassez de recursos é uma questão de tempo.

Espalhar tecnologia para todos os cantos do planeta acelera o progresso mundial, podemos melhorar a educação, o poder de comunicação, a capacidade de interação e dar acesso à ferramentas de produtividade que dinamizam as economias locais. Governos que se fecham à globalização ou aos avanços da tecnologia podem até melhorar momentâneamente alguns indicadores industriais, mas vão fazer sua população pagar pelo atraso no futuro.

As brigas entre governos dificilmente representam as vontades das suas populações, porém com a comunicação concentrada na mão de poucos ficava difícil perceber isso. Somos seres sociais, e agora nos comunicamos livremente pelo mundo digital, compartilhando ideais que extrapolam sistemas políticos, classes sociais, gerações, etnias e fronteiras.

Os gráficos acima foram retirados do estudo da GlobeScan que resumiu seus resultados em Cinco Aspirações Humanas. São elas:

  1. Abundância sem desperdício: Usar a criatividade e evitar a escassez.
  2. Verdade como ela é: Aceitar as imperfeições e mostrar a verdade.
  3. Estar mais próximo: Saber quem são as pessoas por trás das organizações.
  4. Ter de tudo: Poder experimentar e consumir o que o progresso nos traz.
  5. Fazer algo bom: Saber como impactar de forma positiva o mundo a cada dia.

O estudo buscou identificar o comportamento de 22 mil pessoas ao redor do mundo para saber como as marcas devem se posicionar no futuro. Os itens 1,4 e 5 são abordados com frequência na Singularity University e vê-los emergindo na população reafirma o otimismo que sabemos que podemos (e devemos) levar para dentro de todas as organizações do Brasil.

Eduardo Ibrahim é Faculty de Inteligência Artificial e Economia Comportamental da SU Brazil

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