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Organizações exponenciais

O conceito de organizações exponenciais foi criado por Peter Diamandis juntamente com Salim Ismail, Michael Malone e Yuri Van Geest no contexto da Singularity Univerity. As organizações exponenciais são aquelas que, segundo os autores, são 10 vezes melhores, mais rápidas e mais baratas que as organizações convencionais. Ou seja, elas produzem mais resultado com muito menos recursos e impactam muito mais pessoas.  Eles criaram o livro “Organizações Exponenciais” baseado num estudo profundo de mais de 60 obras clássicas de autores consagrados sobre gestão da inovação, entrevistas com dezenas de executivos C-level da Fortune 200, 90 empreendedores e visionários de alto impacto e investigações sobre as características das 100 startups com crescimento mais rápido e mais bem-sucedidas do mundo.

Uma comparação entre o Google e a General Motors permite ilustrar bem o conceito. Em 1979, a General Motors empregava 840 mil pessoas enquanto em 2012 o Google empregava 38 mil (4,5% da força de trabalho da GM). No entanto, enquanto a GM gerou U$ 11 bilhões (em números atualizados para 2012), o Google gerou US$ 14 bilhões em ganhos (20% acima do resultado da GM).

Uma diferença central entre as organizações tradicionais e as exponenciais é que estas últimas possuem um ambiente baseado na informação. Assim, no lugar de muitos colaboradores, as organizações exponenciais se apoiam em tecnologias da informação. Com esta base digital, elas convertem informação em serviços ou produtos digitais e os oferecem no mundo digital e on-demand, criando uma enorme vantagem competitiva.

Ainda, as organizações exponenciais têm impacto desproporcionalmente grande – ao menos 10 vezes maior – quando comparadas com as organizações no mesmo ramo de atuação, dada a utilização de novas técnicas organizacionais que alavancam as tecnologias aceleradoras. Peter Diamandis descreve o processo de desenvolvimento dessas empresas como uma sequência de 6 passos que apelidou de 6Ds: Digitalizada, Enganosa (Deceptive), Disruptiva, Desmaterializada, Desmonetizada e Democratizada.

Assim, qualquer tecnologia que se torna digitalizada entra num período de crescimento enganoso (Deceptive) onde como em qualquer exponencial, os números muito pequenos continuam pequenos, mesmo que dobrem (0.04, 0.08, 0.16…). No entanto, de acordo com o autor, assim que estes números atingem o ponto de inflexão da curva, os crescimentos passam a ser de outra ordem de grandeza e não passam mais imperceptíveis, tornando o fenômeno disruptivo. Ao se tornar disruptiva, a tecnologia se desmaterializa, ou seja, ela não precisa mais de componentes físicos, tornando-se apenas informação digital – por exemplo na forma de um aplicativo num smartphone. Com isto, o produto ou serviço desmonetiza, tal como o UBER desmonetizou frotas de taxis. Por fim, o último passo é a democratização já que o mundo digital permite que se atinja a escala de bilhões de pessoas e não depende mais da colossal estrutura e quantidade de recursos que era necessário antes com bens de consumo não digitais (como é o caso da Coca-Cola, por exemplo).

Figura 1 – Tempo para empresa atingir o valor de U$ 1 Bilhão – Adaptado de [1]

A figura 1 mostra o número de anos que levou para empresas típicas da Fortune 500 e empresas exponenciais atingirem o valor de mercado de 1 bilhão de dólares. Enquanto o grupo de empresas tradicionais levou em média 20 anos, o Google levou apenas 8 anos, o Facebook 5 anos, a Tesla 4 anos, o Uber e o Whatsapp 3 anos, o Snapshat 2 anos e o Oculus Rift apenas 1 ano.

Dentro deste novo paradigma, a marca, a reputação, o tamanho, o faturamento e a participação de mercado não são mais garantias de que uma empresa estará viva amanhã. Nesse paradigma é possível com pouco recurso e em pouco tempo se construir um novo negócio bem-sucedido. Um exemplo desta mudança de paradigma são as Fintechs: startups oferecendo serviços financeiros, como meios de pagamento, serviços bancários e de seguros. No passado, o valor necessário de investimento em sistemas, infraestrutura de hardware para suportar tais transações, e, ainda estrutura física de atendimento, concentrava naturalmente a oferta de tais serviços em torno de bancos criados a partir de grandes fortunas familiares. Dada esta mudança na barreira de entrada e acesso ao mercado, hoje o mercado está inundado de Fintechs oferecendo os mais diversos serviços financeiros.

Figura 2 – Tempo para empresa atingir o valor de U$ 1 Bilhão – Adaptado de [1]

As empresas tradicionais tem crescimento linear, pois dependem fortemente de ampliação de infra-estrutura física para crescerem, o que impõe limitação física e do capital disponível (figura 2). Para uma empresa vender mais, ela precisa crescer sua força de venda, sua estrutura de distribuição, montar subsidiárias, novas fábricas e etc. Por outro lado, as organizações exponenciais basicamente entregam bits & bytes pela internet na forma de diferentes serviços, de forma que estão virtualmente acessíveis globalmente desde o dia em que colocam o serviço no ar, o que viabiliza um crescimento de comportamento exponencial (figura 2). Assim, o estágio de desenvolvimento das tecnologias computacionais, de redes de computadores e outras – como por exemplo, impressoras 3D, óculos de Realidade Virtual e técnicas de inteligência artificial – estão fazendo com que as organizações lineares fiquem para trás. Apenas para ilustrar, mesmo um componente físico pode ser entregue pela rede, visto que um usuário com uma impressora 3D pode receber as informações digitais pela rede e imprimir o dispositivo físico. De fato, há pesquisas inclusive com impressoras de comida, que permitirão que certos pratos sejam impressos no local do usuário, a partir de instruções digitais recebidas pela internet.    

De certa forma, o menor tamanho das empresas exponencias constitui uma vantagem adicional além do menor custo: tratam-se de organizações mais ágeis, e, portanto com maior capacidade de adaptação e resposta às mudanças ambientais, adoção de novas tecnologias e apropriação de valor. Estas empresas dependem menos de capital disponível para realização de mudanças e lançamento de novos produtos/serviços, permitindo a realização de pivotamento de estratégia. O pivotamento seria uma mudança de curso radical na estratégia da empresa em resposta à insucessos no atingimento de metas ou ao detectar mudanças consideráveis no ambiente.

Para uma empresa ser exponencial ela precisa ter um conjunto de atributos identificados pelos autores. O primeiro deles é o Propósito Transformador Massivo (MTP), que foi encontrado, sem exceção, em todas as empresas investigadas. Trata-se de um propósito daquilo que a empresa deseja fazer (e não daquilo que já é feito) com um potencial de atingir uma massa considerável de pessoas (para ser massivo e portanto poder ser exponencial).

Os autores propuseram o acrônimo SCALE (Staff, Community, Algorithms, Leverage, Engagement) para o conjunto de atributos das empresas exponenciais, sob a ótica da empresa de dentro para fora, tal como mostrado na Tabela 1. Ao contrário das empresas tradicionais, as exponenciais se apoiam mais em recursos humanos externos do que internos para crescerem, como no caso do UBER: quantos motoristas a UBER tem contratado? Estas empresas usam portanto o conceito de Equipes sob Demanda, e, sob o conceito de plataforma, as empresas exponenciais alinham os interesses com recursos externos e podem crescer rapidamente com menos dependência de um grande time interno.

As empresas exponenciais que possuem um bom MTP conseguem atrair uma multidão de admiradores que vão muito além das pessoas diretamente envolvidas no dia a dia com a empresa e que se tornam uma extensão da empresa (“Comunidade + multidão”).

A utilização de algoritmos (outro atributo) por parte destas empresas permite a automação do processo de entendimento de como a comunidade funciona e pensa. Com isto, estas empresas podem manter o público mais engajado com menos dependência de recursos humanos, bem como aumentando a personalização de conteúdo, configurações e até anúncios para os diferentes usuários. 

As organizações exponenciais utilizam ativos alavancados ao invés de imobilizarem ativos em suas operações. Ou seja, elas procuram possuir apenas os recursos que são escassos e não as commodities, pois estes últimos podem ser alugados, contratados ou compartilhados, e não oferecem vantagem competitiva alguma.

Já em termos de atributos da empresa para dentro, os autores propõem um conjunto de atributos representados no acrônimo IDEAS (Interfaces, Dashboards, Experimentations, Autonomy, Social).

A quantidade de dados gerada nessas empresas é colossal, bem como os processos gerados pelos fatores externos descritos. Esses dados precisam ser controlados internamente e para isso essas empresas utilizam interfaces, que são processos, padronizações ou metodologias essenciais neste gerenciamento. As interfaces automatizadas permitem a gestão de uma quantidade enorme de informações e processos com poucos recursos humanos e poucos procedimentos manuais, suportando, portanto, o crescimento exponencial.

Da mesma forma, estas empresas se apoiam em Dashboards para reunir automaticamente dados e indicadores. Com isto, todos na empresa possuem acesso em tempo real ao que está acontecendo na empresa e podem tomar decisões rapidamente, de forma descentralizada e com informações concretas. Estas empresas se baseiam fortemente em métricas e outros indicadores para entender o que está acontecendo e tomar decisões.

Estas empresas se apoiam na prática da experimentação para saber o que seus clientes ou potenciais consumidores querem antes de produzirem o serviço ou produto. Enquanto as empresas geralmente lineares produzem um novo produto/serviço e gastam recursos tentando convencer as pessoas a comprarem, as organizações exponenciais realizam vários experimentos com protótipos para entender exatamente qual é a necessidade de seus clientes. Outro exemplo de experimento é a utilização de financiamentos coletivos para um novo produto, que além de garantir o dinheiro para viabilizar um projeto, permite testar a aceitação de uma ideia de um produto/serviço antes de investir consideráveis recursos como tempo e dinheiro no desenvolvimento dele.

Outro atributo geralmente presente nas organizações exponenciais é o conceito de autonomia. Estas empresas contam com equipes multidisciplinares autogeridas, com autoridade descentralizada, portanto, e com mais independência, garantindo velocidade e qualidade nas decisões.

MTP – Propósito Transformador Massivo
IInterfacesEquipes sob DemandaS
DDashboardsComunidade e MultidãoC
EExperimentaçãoAlgoritmosA
AAutonomiaAtivos AlavancadosL
SSociaisEngajamentoE
Tabela 1 – Características das organizações exponenciais– Adaptado de [1]

Por fim, um último atributo identificado nas pesquisas realizadas pelos autores é a utilização de tecnologias sociais, que habilitam o trabalho em qualquer lugar, tais como e-mails, sistemas corporativos descentralizados, sistemas de compartilhamento de arquivos, ferramentas de chat e comunicação, e, gerenciadores de tarefas e projetos, que garantem o sincronismo e a fluidez das informações mesmo com os membros em lugares fisicamente distantes. Com isto as decisões se tornam mais rápidas e mais amplas.

De acordo com os autores, o MTP + IDEAS + SCALE é a fórmula para uma organização se tornar uma plataforma e consequentemente se tornar exponencial, tais como Uber, Netflix, Airbnb, etc.  Os atributos IDEAS propiciam ordem, controle e estabilidade para a organização, enquanto os atributos SCALE viabilizam a criatividade, o crescimento e a operação no regime de incerteza. Juntos, estes elementos criam um equilíbrio que permite que a organização se torne exponencial. 

Ainda, há um conjunto de conceitos importantes dentro do paradigma de organizações exponenciais que devem ser considerados. Deve-se migrar a concepção de crescimento linear de empresas para uma curva exponencial. O custo marginal das vendas precisa tender a zero para que a empresa seja exponencial. A utilização de sistemas de reputação digital para usuários é fundamental para gerar engajamento entre usuários, pois eles passam a competir por um ranking ou classificação, estando sujeito aos mecanismos de pressão dos pares.

Finalmente, um conceito importante é a automação das funcionalidades que geram receitas para a empresa, permitindo que o negócio se escale e a organização se torne exponencial, já que não depende de colaboradores para intermediar esses processos.

Alexandre Moreira Nascimento é consultor, pesquisador em Inteligência Artificial e Dispositivos Autônomos Inteligentes e expert da SingularityU Brazil.

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