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The Great Reset: o despertar para o novo contrato social

Chegou a hora de apertar o reset do mundo, desobstruir a mente e entrar em um estágio inovador de pensamento – um novo Iluminismo – ao qual eu chamo de MetaIluminismo. Este conceito compreende singularidade tecnológica, progresso cientifico, inovação politica, social e econômica. Nos paradoxos da transição estão as formas de encarar o mundo: Linear vs. Exponencial; Local vs. Global e Analógico vs. Digital.

É necessário nos libertarmos dos pesos da escassez para entrarmos na Era da Abundância. Esta mudança de paradigma cria debates públicos polarizados, como temos observado mundo afora. Isso acontece porque permanecemos reféns de um modelo tão antigo quanto a história da humanidade e, assim, não reconhecemos as possibilidades rumo ao crescimento. Quem vê adiante quer abraçar as oportunidades. Aqueles que não perceberam essa reorganização vivem atolados, presos ao status quo, excluídos gradativa e seletivamente pelo processo de mudança, resistindo às forças disruptivas sem conseguir deixar para trás todas as amarras.

A mentalidade infinita faz com que o cidadão perceba que mais importante do que ganhar ou perder é permanecer no jogo. Este conceito de Simon Sinek muda completamente a forma de tomar decisões – sejam elas políticas, nos negócios ou na vida.

Assim como o movimento iluminista trouxe razão e conhecimento no século XVIII, o MetaIluminismo envolve a transformação do pensamento de escassez para luz e abundância. O prefixo Meta, do grego, exprime transcendência e sugere mudança.

Peter Diamandis, Bill Gates e Steven Pinker defendem que este é o melhor momento já vivido pela humanidade. Entre os muitos aspectos analisados nesta defesa, Pinker exemplifica que há 200 anos 90% da população vivia em extrema pobreza. Hoje, 10% se mantem nesta condição – ou seja, sobrevive com menos de 1,90 dólar/dia.

Enxergar o mundo sob a ótica do copo meio cheio é um dos primeiros desafios para a resiliência. Diante desse período de pandemia e vislumbrando o próximo normal é possível olhar para trás e observar que o que era frágil quebrou e desintegrou. Também passamos a ter clareza no que se mostrou robusto, isto é, permaneceu inabalável. Mas, surge aquele que supera a adversidade. Na biologia, Darwin identificou que alterações genéticas podem ser vantajosas. Nestes casos, as espécies acabam por incorporar a novidade e se tornam mais fortes, mais adaptadas à nova realidade. Ou seja, se beneficiam do caos e das mudanças. Isso é o que Nicholas Taleb chama de antifrágil.

A Singularity University classificou os desafios a serem enfrentados pela humanidade em dois grupos: aqueles que são relacionados a recursos (energia, água, moradia, alimentação, espaço e ambiente); e os que são relativos ao futuro das cidades e civilização (governança, saúde, prosperidade, segurança, aprendizado e resiliência a desastres naturais). Encontrar soluções antifrágeis para esses Global Grand Challenges significa dialogar com o desenvolvimento social, econômico e político.

As propostas que estão alinhadas com esse próximo normal e que devem ser perseguidas até pelo menos 2050 – quando chegaremos à metade deste século – precisam ser pensadas tendo como base os cinco pilares identificados pelo acrônimo STEEP – Social, Technological, Economical, Environmental, Political. Considerando as infinitas possibilidades de soluções para os desafios identificados, podemos imaginar um cone. Quanto mais para a frente projetarmos, menor será o diâmetro do funil. O planejamento para um futuro cada vez mais distante parte da análise detalhada das informações e elaboração de um plano de políticas públicas consistente.

Estamos falando em reescrever toda a estrutura organizacional de forma exponencial. Isso significa criar processos e sistemas de governança para construir um mundo mais justo, sustentável e resiliente. Se as causas são justas e as regras são transparentes, as chances de mobilização e sucesso são maiores.

Este novo momento da história exige uma mudança na mentalidade das pessoas. Os profissionais T serão cada vez mais valorizados, já que têm especialização em um tema e capacidade para olhar o processo como um todo, de forma multidisciplinar, conhecendo um pouco de cada assunto. São eles que impulsionarão as instituições públicas e privadas para se tornarem antifrágeis.

Estamos vivendo um momento Black Swan. Curiosamente, isso acontece no exato instante em que havia a proliferação do individualismo global, com fechamento de fronteiras físicas, diplomáticas e culturais, movimentos protecionistas e enfraquecimento dos grandes blocos. Diante dos desafios apresentados pela Covid-19, as nações percebem que a solução regional não basta. São necessárias ações conjuntas e, consequentemente, as relações entre os países precisam mudar.

O Fórum Econômico Mundial por meio da iniciativa The Great Reset afirma que vivemos um momento de urgência e pede para que os stakeholders globais cooperem simultaneamente na gestão direta das consequências econômicas, sociais e politicas da crise causada pela pandemia.

O contrato social que exercitamos até os dias de hoje se relaciona essencialmente com o mundo analógico e construtivista; com o pensamento finito, linear e com mindset local. Isso precisa ser remodelado para o mindset global, exponencial e disruptivo, que ofereça causas justas e construa um legado. Entrar no MetaIluminismo significa fazer um aditivo no contrato social. Todo contrato de longo prazo precisa de ajustes. Este é o momento.

O setor público deve se tornar um estado empreendedor. Gerenciar, organizar e controlar projetos; desenvolver veículos de investimento financeiro em pesquisas e investir em novas tecnologias devem ser competências e prioridades do poder público. São necessárias ações transformadoras e de impacto social. Para isso, cabe às esferas de governo convidar a iniciativa privada para investir, construir, operar e transferir infraestrutura como patrimônio de bem coletivo para o estado, proporcionando um diálogo com o risco de forma mais sustentável para ambos.

O ciclo se fecha porque os dois setores interagem simbioticamente num ambiente que convida à geração de valor e prosperidade. Esse novo mundo obriga que o desenvolvimento humano e social seja prioridade, antes de se pensar no retorno para os acionistas. As grandes corporações reconhecem a importância do Triple Bottom Line:  lucro, pessoas e planeta. Ou seja, a composição básica do ESG – Environmental, Social and Governance.

As Parcerias Público Privadas (PPPs) têm que oferecer tanto ao poder público quanto ao privado ativos com bom desempenho financeiro, onde riscos e dividendos são socializados. Hoje, existe uma percepção de que a PPP privatiza o lucro e socializa o risco. O mindset disruptivo transforma o ecossistema e o torna mais transparente, sugerindo responsabilidades e obrigações na construção, na operação e na transferência de infraestrutura.

Isso permite o minimalismo institucional. Cada um se dedica àquelas atividades nas quais tem expertise. Este é o DNA de uma verdadeira organização exponencial, seja ela pública ou privada.

Klaus Schwab, Founder & Executive Chairman do Fórum Econômico Mundial disse recentemente que a pandemia representa uma rara e pequena janela de oportunidade para refletir, reimaginar e resetar o mundo. Por sua vez, António Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, em comunicado oficial relatou que a pandemia deve ser interpretada como um momento wake-up call – ou seja um despertar oportuno para o reconhecimento de que a única forma das fragilidades globais serem resolvidas é a criação de mecanismos mais robustos de governança global e cooperação internacional.

Agora é o momento de pivotar e apertar o botão do Great Reset, renovar o contrato social, redigir um aditivo com cláusulas de oportunidade de crescimento humano e resolver os desafios globais gerando abundância e prosperidade com mentalidade exponencial, digital e global.

Vamos assinar juntos?

Peter Cabral – Cientista político, especialista em Mobilidade Urbana e Cidades Inteligentes e Expert da SingularityU Brazil

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